mapa ZP 1

Amazônia: Desafios da Maior Zona de Praticagem do Mundo

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ZP-1, a maior Zona de Praticagem do Mundo

Já imaginou levar mais de um dia inteiro para chegar ao trabalho? Pegar dois aviões e várias horas de carro e saber que, ao chegar lá, uma única tarefa poderá exigir 80 horas contínuas para ser concluída?

Essa é a realidade dos Práticos de Navios da Zona de Praticagem #1, localizada na Bacia Amazônica. Considerada a maior Zona de Praticagem do mundo, a ZP-1 (Fazendinha/AP – Itacoatiara/AM) se estende pelos rios da região ao longo de 1.300 milhas náuticas e três estados. É o equivalente a 2.500 km de extensão, ou 5 viagens entre Rio de Janeiro e São Paulo. Chega a ser difícil compreender a escala da ZP-1 sem uma comparação externa. Mas não é só o tamanho que faz da gigantesca ZP-1 uma das Zonas de Praticagem mais complexas e interessantes do Brasil, e, certamente, do mundo.

Mapa da ZP-1 — maior Zona de Praticagem do mundo, na Bacia Amazônica entre Fazendinha/AP e Itacoatiara/AM


Aos que não estão familiarizados com o termo, uma “
Zona de Praticagem” (abreviada como ZP) é uma área geográfica delimitada pela Marinha em função de peculiaridades locais que dificultam a livre e segura movimentação de embarcações, exigindo assim o funcionamento ininterrupto de um serviço de praticagem naquela região com o propósito de evitar acidentes, encalhes e outros prejuízos potenciais nos portos e vias navegáveis.

Para fins deste artigo, vamos falar apenas da ZP-1, por ser a maior delas, mas a estrutura da praticagem para atender à região norte do Brasil como um todo é ainda mais ampla. Além da ZP-1, a região Amazônica é também atendida pelas praticagens da ZP-2 e da ZP-3, que se estende até Belém do Pará. O complexo inclui diversas bases operacionais e lanchas de praticagem nas localidades de Itacoatiara (Amapá), Fazendinha (distrito de Macapá), Belém e na Barra Norte, na costa do Pará.


Rotina dos Práticos da ZP-1

Falando nos profissionais em atividade na ZP-1, são nada menos que 160 Práticos divididos em algumas empresas de praticagem que atendem aos portos e terminais da região. O número representa a maior lotação entre as ZPs brasileiras. O quadro amplo vem da frequente necessidade de se ter ao menos dois Práticos em revezamento no passadiço dos navios para a realização das fainas que podem se estender por até 80 horas, a depender do trecho, das marés e do tipo de embarcação.

Prático de navios em ação no passadiço durante manobra na Amazônia


E o tempo de duração das fainas é o menor dos desafios para os Práticos da ZP-1. Chegar até o local de trabalho já representa uma dificuldade logística, considerando a extensão da região. A previsão mínima para a praticagem conseguir levar um Prático a bordo é de 24 horas. Esse trajeto até o navio muitas vezes inclui pegar múltiplos voos comerciais, lanchas, trajeto de carro em estrada ruim e até mesmo voos em aviões monomotor do tipo “teco-teco”.

Segundo o relato de Adonis Passos Júnior, Prático e presidente de uma das empresas de praticagem da região, para a revista Rumos Práticos (ed. 55), “não existe zona de praticagem com essa dificuldade logística. A mais próxima dessa realidade é a ZP-2 (Itacoatiara/Tabatinga)”.

Bancos de areia e os desafios da navegação fluvial

Um outro desafio constante encontrado em manobras da ZP-1 é lidar com os fatos inerentes à navegação em grandes rios. Seus leitos estão em constante mudança. Os bancos de areia se movimentam permanentemente, invalidando até as cartas náuticas mais recentes.

“Aqui na Amazônia é assim: você está navegando pelo radar, mas pela carta náutica estamos navegando em terra. Aqui tem que ter Prático, senão encalha” – comenta o Prático e ex-aluno do Curso H, Roberto Ermel, em um vídeo sobre a rotina da atividade na Amazônia.

Essa mudança dos bancos de areia é acompanhada de perto por batimetria realizada pela própria praticagem local, e não é incomum os comandantes dos navios questionarem se a sua embarcação não estaria “navegando em terra”.

Escassez de rebocadores e risco de embarcações menores

O prático Castro Alves (ZP-1), aprovado na seleção de 2012, em seu relato para a Revista Rumos Práticos (edição 55), indica ainda outros dois desafios da região: a falta de meios adequados para manobrar e o constante tráfego de embarcações menores, por vezes apagadas ou sem instrumentos de navegação.

Exemplo marcante da primeira situação, no Rio Jari os profissionais não têm acesso a rebocadores para auxiliar na manobra. Segundo Castro, “Em alguns lugares, operamos quase no estado da arte. No Jari, usamos a corrente do rio para encostar e desatracar. Não há rebocadores. São manobras cheias de detalhes”.

Barco empurrador indo rio acima transportando barcaça de carga a granel no Rio Amazonas
Barco Empurrador indo rio acima

Sobre o tráfego intenso nos rios, comenta: “Algumas embarcações têm dificuldade até de responder ao rádio. AIS (Automatic Identification System), poucas possuem. Volta e meia, um barco empurrador atravessa à nossa frente e temos que agir com antecipação para evitar um acidente”.

Arco Lamoso, o ponto mais perigoso do trajeto

O trecho considerado mais crítico do Rio Amazonas, apelidado de “Arco Lamoso”, é uma região onde o serviço de praticagem é facultativo. Porém, por segurança, os armadores contratam o serviço para navios-tanque carregados e embarcações que transportam soja e milho com mais de 11,5 metros de calado.

O trecho de 20 milhas náuticas requer navegação de extrema precisão para a embarcação não tocar o fundo. A travessia é feita em baixa velocidade, monitorando-se o tempo todo por sondagens a folga de um metro abaixo da quilha, o mínimo exigido para petroleiros.

Ganhos de produtividade com ajuda da Praticagem

Em março de 2020, houve a primeira passagem de uma embarcação pelo “novo” canal do Arco Lamoso, até 0,8m mais profundo. Naquele mesmo mês, a Marinha autorizou os testes para o aumento do calado na região para 11,90 metros, uma conquista que contou com o suporte de dados de batimetria e de marés da praticagem. O calado médio dos navios aumentou 40 centímetros naquele ano, um ganho de um milhão de dólares a mais em carga por embarcação.

Dois anos depois, em fevereiro de 2022, a Cooperativa de Apoio e Logística aos Práticos da ZP 1 (Unipilot) e o Comando do 4º Distrito Naval assinaram um protocolo que prevê a criação de um sistema de calado dinâmico na barra norte do Rio Amazonas para aumentar a capacidade de carga transportada pelos navios e, em consequência, elevar a produtividade da região. A Marinha fará o gerenciamento técnico do projeto, enquanto a Unipilot se encarregará do gerenciamento operacional, entrando com materiais e equipamentos.

O projeto prevê a instalação de três boias com sensores de marés, vento e correntes. “Com a leitura dessas três boias, a gente vai conseguir estabelecer com precisão a altura da maré, que varia muito de acordo com a época do ano, e ter conhecimento sobre todas as outras variáveis. A partir daí, vamos criar uma sistemática de informar aos terminais quais os valores de carregamento que eles vão conseguir explorar para conseguir o máximo de transporte de carga” – afirmou o gerente da Unipilot, Fernando Câmara. A expectativa com o novo sistema de informação é chegar aos 13 metros, disse Câmara.

O gerente da Unipilot avalia que o projeto vai favorecer a exportação agrícola que usa a hidrovia do Arco Norte, em especial de produtos como soja, milho, minério de ferro e bauxita. Vai auxiliar também a cabotagem de navios que vão entrar por Manaus e que poderão transportar mais contêineres.

A maior Zona de Praticagem do mundo merece o melhor

Cerca de 1.300 embarcações trafegam por ano na Amazônia. As principais cargas transportadas são bauxita, soja, trigo, petróleo e derivados, contêineres e cimento. Por ano, cerca de dois mil serviços de praticagem são prestados na região, ecologicamente a mais sensível do mundo, onde, além da biodiversidade, as águas garantem o sustento de ribeirinhos, pescadores e indígenas. Nas palavras de Ricardo Falcão, reeleito presidente do CONAPRA e prático em atividade na Amazônia há mais de 20 anos:

“Na Amazônia, os rios comandam a vida das pessoas”.

Tráfego intenso de pequenas embarcações nos rios da Amazônia

Segundo a Associação Internacional de Clubes de Proteção Mútua dos Armadores (International Group of P&I Clubs, em inglês) o índice de acidentes com práticos a bordo no Brasil é de apenas 0,002% (dois milésimos por cento), similar ao dos Estados Unidos.

O CONAPRA, em parceria com o programa programa Amigos do Mar, produziu uma série especial de vídeos sobre a praticagem na região, que você confere neste link.

Depoimento: Prático Roberto Ermel

Falando em Práticos da ZP-1, confira o depoimento do Prático Roberto Ermel sobre como ele se tornou Prático de Navios com ajuda do Curso H:

 

 

 

Uma resposta

  1. B noite ilustres navegadores, respeitosamente destaco que neste estudo publicado, especialmente pelo ARCO LAMOSO percebi que não houve nenhuma observação sobre uma grande característica do Rio Amazonas, sua grandiosidade, o maior rio do mundo, não há dúvida. Grande abraço à toda Praticagem da Amazônia!

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  1. B noite ilustres navegadores, respeitosamente destaco que neste estudo publicado, especialmente pelo ARCO LAMOSO percebi que não houve nenhuma observação sobre uma grande característica do Rio Amazonas, sua grandiosidade, o maior rio do mundo, não há dúvida. Grande abraço à toda Praticagem da Amazônia!

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